sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sentinela



Era tanta a pressa de pegar nas ideias que brotam todos os dias que se esquecia do passar do tempo quando este lhe dava algum tempo para lhes dar vida na escrita e na pintura.

Sôfrego, atropelava-se e confundia-se na ânsia de aproveitar todos os instantes do momento, se no pensar os pensamentos correm e fluem rapidamente, no papel e computador as ideias deslizam muito mais lentamente, penosamente até, na construção dos contos e cantos que tinha dentro de si e queria pô-los cá para fora.

Somos constantemente influenciados e moldados pelo que gira à nossa volta, na verdade construímo-nos muito à custa dos alicerces dos outros, a vida e o pensar dos outros são elos do nosso crescimento.

Sentou-se (penso que me sentei) ao piano e deixou que os dedos ganhassem vida no jogo sedutor dos corpos das teclas cheios de sons, improvisou sem pensar em nada, foram os ecos do momento que o levaram, tinha acabado de acariciar o rosto do bebé e as mãos vibravam de felicidade que derramou no ar alegre, não sabia bem o que era aquela intensidade mas sentia-se profundamente feliz, e tocou incessantemente horas a fio em desvario deslumbrante.

Lembro-me de ti muito risonha e pouca vestida correndo pelo monte quando o descias tresloucadamente com o cabelo longo no ar flutuando como asas para te levantar do chão, redesenho-te na mente agora que já não temos a frescura de outrora, e continuas sonho, e continuo a sonhar-te.

Apetece-me escrever e agora escrevo solto e livre sem pensar em ninguém, talvez em ti, não sei se é só para ti, é para mim também com certeza, e se calhar para este momento aparentemente sem significado especial mas que me impele a registá-lo em palavras, ainda guardas o sentir que te confiei na altura?

Lembras-te do conto que escrevemos oralmente falando alto e baixo em todas as altura das nossas frequentes idas para o cimo do monte?

A raiva que tenho do tempo ter minguado... a raiva que tenho de já não ter tempo para sentar-me nas rochas dentro do mar o tempo que me apetecer.  Agora olho-as mais de longe e alguma revolta remói-me cá dentro. Por que não hei -de romper com este viver aflitivo actual? Por que tudo se passa tão depressa que é cada vez menos o saboreio dos momentos?

Sei de pessoas que não param um instante de manhã à noite e têm vários empregos e serviços ao dia, descansam (se assim se pode dizer) umas horas de dormir intranquilo que nunca são as suficientes e tantas vezes sobressaltadas pelo toque do despertador.

Agora está um fresco delicioso que vem do mar, é Primavera e andam cheiros no ar que estimulam e sabem bem, sinto-os mas não consigo descascá-los, decifrá-los, se calhar dar o devido valor a estes aromas que me inundam tão saborosamente o respirar - há muito de coxas e carne feminina neste ar fresco emocional que me toca.

Hoje o remanso do mar que de tão quieto inquieta-me, é um mar bravio e rebelde este, belo e único, por vezes deixa-se sossegar e amansar que perturba de tanto encanto exuberante e dócil estendido até ao outro lado mundo.

Contrasta imenso com o soar das vozes e o vibrar das almas das gentes que em terra comemoram e festejam a data da revolução de Abril,  o entusiasmo cantado e gritado troa pelo ar no intenso sentir das liberdades, na tenacidade exaltada e uníssona na corrente de gente que em alegria fazem valer os seus direitos e conquistas que nunca devem ser esmorecidos, a hora é de luta e de demonstração de força e alento pois de sofrimento e penúria já chega!

O céu escurece e já chove, isto nem é mau sinal, a água é sinónimo de fertilidade e de vida, e a vida faz-se lutando contra tudo e contra todos que nos querem encarneirar os passos.

Já me perguntei vezes sem conta que sentido faz a vida se a deixarmos nas intenções e pretensões de usurpadores gananciosos - eu que tanto prezo a minha liberdade e independência e que até sou bastante transgressor nos limites ousados do viver, choca-me saber da existência de gente assim podre.

O que me vale de verdade é o sossego e a tranquilidade no passear relaxado pelo mar e pela barraca do monte perto das estrelas, dentro do fascínio das estrelas na vastidão do espaço nocturno, os silêncios em redor e que me envolvem produzem em mim efeitos fantásticos no sentir a magia espiritual que pulsa e respira à volta, muitas vezes mesmo com a cabeça oca sem pensar em nada de concreto ouço os ecos do meu pensamento à distância, em outra dimensão!

O desenho estelar e o choro estridente com que brindei este mundo no momento em que nasci até me augurou (augura) destino bom, mas não sei bem o que faço e para onde vou, talvez tirando o óbvio.

Nasci  em dia feliz mas se calhar em hora estranha e de rumo incerto... confesso que não tive culpa nenhuma!

Carlos Reis

domingo, 8 de setembro de 2013

MARCAS


Teimava e teima, pela tardinha, aparecer ao pôr-do-sol para me encantar os olhos e os sorrisos que brotam serenos em mim logo que a vejo.

Mulher esbelta e bonita mas mal cuidada, até maltrapilha na simplicidade das roupas, muito descarada nos gestos e andar solto e atrevido, parece uma actriz espirituosa que se insinua num papel qualquer que adora representar.

Ergue a mão com o anel de folheta dourado, bem alto, para a espetar na bola de fogo do sol que se deita todos os dias no mesmíssimo sitio... extasia-se neste ritual diário que me delicia profundamente, como se pedisse namoro ou noivado eterno ao sol nos seus pensamentos mais secretos... como se se quisesse imortalizar nestes momentos do viver assim.

Percorre muito da costa em satisfação imensa olhando o mar e o céu em contemplação, sozinha mas nunca a sós, o assobiar e ondular do corpo denuncia-a, e eu apanho toda esta atracção que me envolve e desarma a todo o instante

Despe as pernas muitas vezes (como a alma) na mais natural nudez no mergulhar e chapinar a carne nas ondas meigas que se estendem no areal que se renova constantemente, agarra a virgindade das sensações como se fossem as primeiras, e vibra balanceando a cabeça em prazer muito seu a passo ou em pequenas correrias equilibrando-se na gravidade.

Olha as coisas e o mundo em redor com olhos atentos e indagadores mas despreocupados e vazios como se esperasse que tudo à sua volta se revelasse, como se esperasse que os elementos e sentidos que lhe entram no sentir, como o mar, as pessoas, o horizonte e os sentimentos lhe revelassem confidências e verdades e segredos.

Olha para onde está virada como se fosse um espaço em branco que precisa de ser ocupado com informações, revelações e manifestações, para entender o que lhe chega, para perceber o que está para além do aspecto imediato - identificar o significado das coisas que lhe inunda a cabeça - decifrar os jogos das evocações, das memórias, o lado menos visível da vida.

Tudo é ritual diário, mas singular no saborear novo em cada dia e isto deslumbra-me, deixando-me hipnótico de olhos colados neste gostar de aproveitar o passear assim.

A tentação de me aproximar é muita, imensa, conversar um pouco e descobri-la por dentro.
Mas ao mesmo tempo é avassalador o receio do risco de quebrar toda esta envolvência fascinante que me transmite assim no desconhecimento.   

Previ couraça dura na pessoa desta mulher e adivinhei... não foi fácil conquistá-la.
A conversa fluiu e as mãos entregaram-se.
Sereno o seu toque de mão, como o sol meio encoberto que se deita ao longe, o sangue lateja-me nas veias mais apressadamente como se tivesse pressa de chegar a algum lado.
E não temos pressa nenhuma, queremos ficar assim na docilidade do momento.

Os sons que ecoam no nosso sentir rivalizam com o belíssimo ressoar do mar exaltado que canta melodias de encanto - se estiveres bem eu estou bem neste gostar impetuoso.

Nós estamos estranhamente calmos, possuímo-nos no ar que nos embrulha nos toques das mãos e respirar solto e sonhador que se estende... estende-se para além do mais profundo das palavras, no reino do sangue e entranhas.

Ondas de vento forte trazem maciços de nuvens que escurecem a luz já ténue  do dia, troveja ao largo e outros rasgos fulminantes de cor surgem em desenhos surreais, as vozes do som estridente dançam na chuva que cai teimosamente compondo musicais arrebatadores, já não chovia há muito e isto parece novidade, alquimia - e tudo isto não empalidece o róseo do seu rosto lindíssimo... há uma aura invisível que nos protege do mau tempo e rejubilamos de alegria.

Se pudesse desligar-me das coisas térreas, caminhava contigo pelos caminhos etéreos, infinitos, que me criaram. que nos criaram.

Às vezes apetece-me adormecer assim, eternizar-me assim, com ela no meu colo, na bolsa de calor que irradia - uma espécie de ventre viajante, flutuador, que nos deixa paralisados assim em braços de paixão profunda.
 
Carlos Reis

 

 

sábado, 23 de março de 2013

AS CRIANÇAS DO PINTOR



Era bajulado constantemente por onde andava e expunha os seus trabalhos de pintor admirado e conceituado.
O orgulho e humildade faziam parte dos seus gestos e sorrisos. Falava com paixão e ternura das suas pinturas em vaidades simples, que o gosto de pintar manifestações dos sentimentos e dos sentidos  "eram oferendas do fervor da sensibilidade da sua alma".

 
No meio do espaço, enorme espaço cheio de tintas e pincéis, telas e panos e paus espalhados pelo chão e paredes longas e altas - o homem, especado em frente da tela que pintava parecia uma estátua de braço caído de pincel na mão.

Olhar fixo na tela rosnava baixinho sons de desagrado, de insatisfação... parecia firme e determinado mas os traços na tela mostravam insegurança  e hesitação, de tão parado que estava a tensão que irradiava curvava o ar em redor, parecia que ia explodir a qualquer momento.

Ele não sabia mas por cima dele esvoaçavam duas sombras que pareciam duas aves enormes que, indistintas, a espaços se mostravam claramente ferozes que se cruzavam com rapidez fulminante, lutando com certeza na busca de algum troféu que o pintor desconhecia deixando-o desconcentrado.

- Raios!!... Que se passa comigo? Eu sei o que quero, penso que sei, acho que tenho tudo bem claro na cabeça e a mão não me obedece vacilando a todo o instante. Estarei alucinado ou tão bêbado assim?!

Irritado e enfurecido pousa o pincel na mesa e sobe as estreitas escadas até à galeria que circunda metade do alto do armazém/estúdio de janelas amplas viradas para oeste.
Abre a porta de rompante que dá para o pátio no cimo da falésia, precisava do ar fresco do mar, dando uma valente cabeçada nela ficando com uma marca bifurcada na testa bem visível... negras como braços que se estendem aflitos.
 
Ao lado, na casa contígua, duas crianças assistem àquela cena, curiosas, mas de olhar passivo como se já estivessem muito habituadas à presença deambulante do pintor, que parecia um fantasma vestido de farrapos de emoções.
 
Nitidamente desassossegado pega numa cigarrilha e bebe umas goladas de  cerveja gelada olhando o mar suave que se entoa nos braços das rochas
- Que vedes aí do alto gaivotas?... Grito estouvado... Pedido sem ecos...
- Que vedes lá ao fundo onde o mar se debruça em outros dorsos de encantos e mistérios?
- Não vedes por acaso o barco azul das quimeras prometidas em sonos molhados? Soprado por vozes de fabulações do tempo a mando de êxtases eufóricos ?
    
Desanimado e cansado, sem respostas nem certezas pousa os olhos parados, mas argutos no abstracto, no horizonte... procurando sinais... indagando sensações.
Olhos que se entregam ao prazer rebelde do vento estimulador vindo do mar, absorvendo energia que o inunda e trespassa por inteiro, sopros de energia abundante e inspiradora que se funde no ar que respira.
 
Dentro do estúdio as crianças observam a tela... - Parece uma mulher com cauda de peixe. - É uma aparição em forma de sereia, diz a outra.
Admiravam a sereia enorme, surgida do nada, envolta de ondas revoltas, gigantescas, que a deixavam muito desnuda bailando de braços abertos nas cristas do carrossel da água.. abraços desprendidos no ar.
- É lindo!..  Está linda no meio dos verdes e azuis da água no seu corpo dourado que relampeja no céu espasmos de brancos esfiapados. 
- Há nuvens, além, que a olham de olhos brilhantes... deleitosos e embevecidos que veneram.

Sombras escuras lutam no ar... - Há algo de estranho neste espaço (segreda baixinho uma das crianças) não sentes aragens de ar doridos?... Gritos feridos que gemem?
Destemidas, levadas pela tentação da curiosidade decidem destapar algumas telas viradas contra a parede.

- Esta aqui não é lá muito bonita, é um braço enorme vermelho de forquilha na mão trespassando um corpo de branco luzidio... labaredas gigantescas rejubilam no meio do poço de ar entre os montes cheios de verdes resplandecentes que defendem a entrada da cascata de água. - É o desenrolar de uma contenda ferozmente travada por um demónio qualquer numa guerra inacabada. Diz a outra.

- Aqui são dois corpos nus deitados no chão suado, olhando-se... olhares serenos envoltos de sorrisos que se fundem..  como a beleza das borboletas quando se metamorfoseiam e livres esvoaçam de asas coloridas na vida e nos sonhos . - São olhares de satisfação e deleite depois dos momentos de amor. Diz a outra.
 
- Este aqui de olhos esbugalhados raiados de sangue que se atravessa no caminho do grupo de pessoas alegres em festejos, amedronta... são olhares de sentimentos atormentados, frustrados, sinais de cólera por ver felicidade nos outros que não consegue atingir. - São sentires de raiva e inveja descontrolados. Diz a outra.

- Este é belo!!... Infinitamente belo... o bebé nu esperneando na relva exuberante, viçosa coberta de gotas alva transparentes no imenso planalto cheio de luz, gargalhando para o manto do arco-íris deslumbrante no céu que o beija... sibilam  os voos dos pássaros à sua volta criando ondas de calor embalando-o... cantam os peixes magos no lago folheado aos seus pés que irriga as árvores dos abraços de aromas macios e indeléveis. - É o nascimento, o milagre da vida e da liberdade que nos anima a todos. Diz a outra.

- Repara nas margens do lago quando a brisa faz ondular a água... forma um rosto que reflecte fios de névoa que parece um olho de gotículas na claridade que paira no ar vinda daquele grupo de estrelas. - Talvez represente a visão do transcendente, ou os olhos da alma, não sei. Diz a outra.

- Por que achas que o pintor anda cada vez mais solitário e afastado? Por vezes é um homem muito enigmático e ambíguo, parece que nunca está bem consigo próprio, salta rapidamente entre a inquietude e a serenidade.
Tens-lho visto na ponta da falésia, ora calmo ora agitado, como se falasse com algo invisível?

- Não sei!... As pessoas muito criativas também são bastante instáveis e inseguras... talvez por ser um homem criativo e desassossegado, com os sentidos em turbilhão, raramente está satisfeito com o que cria e inova, descobrir coisas novas é um redemoinho abismal, um emaranhado que confunde... é o desencanto que inunda a alma de desalento na incapacidade de atingir o sublime (ir até para além em limites desconhecidos), na busca da perfeição.

- Não disseste tu que a perfeição é ilusão? Utopia? - Pois disse e mantenho isso pois é a minha opinião... a busca da perfeição é uma demanda errante e inglória pois ela, quando muito, é relativa a momentos, não tem forma nem medida - tal como a felicidade está na satisfação de cada um... é indefinida.

A obsessão da perfeição é perigosa e torpe, muitas vezes deturpa a percepção da genuinidade e autenticidade de muitas outras coisas da vida.
Por outro lado, somos seres sonhadores eternos, insaciáveis, em que a inventiva, a imaginação, a utopia, fazem parte da nossa natureza de ambicionar sempre mais e melhor.

- Sabes, Ingénuo? Se prestares atenção ao que te rodeia e sentes dentro de ti, perceberás que temos forças colossais antagónicas dentro de nós e que nem sempre remam para o mesmo lado - são uma espécie de espíritos gémeos contraditórios que se gladiam sistematicamente... parece que querem ganhar protagonismo singular e maior na personalidade e carácter em cada um de nós. Diz a outra, a Sabida.

(Excerto do conto "As Crianças do Pintor")

Carlos Reis  


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

NAMORO

 

Continuamos a namorar à noite nas janelas de muitas outras noites em pedaços pela madrugada tal e qual como ontem de muitas outras luas apreciadas.
 .

O tempo não está mau, amanhã não se trabalha e agora a noite está deliciosamente calma e dócil como nós, e assim mais um ano se passou depois do alvoroço da noite.
 

Encostados um ao outro saboreamos o fresco friozinho que se passeia pela pele e pelo rosto no silêncio embalador, cortado por um ou outro carro passageiro de foliões da passagem de ano, pelos sinos da torre e pelas ilusionistas gaivotas que dançam em carrossel no céu, ainda despertas de tanto folguedo cá de baixo, ora silenciosas ora barulhentas doidonas como nós, que bem entendemos estas manifestações de contentamento.
 

As ideias embrulham-se no pulsar calado do respirar e pensamentos soltos brotam livres em jorros difíceis de alinhar, dar-lhes forma inteligível de tão dispersos é tarefa árdua - é deixá-los correr. A noite tem esta magia.
 

Estas noites de festas de rodopios transbordantes onde o entusiasmo e alegria e barulheira são dominantes é saudável o pacífico de algum descontrolo.
 

Falamos das coisas da vida e no conseguido até agora, falamos das vitórias e mágoas, das alegrias e tristezas do ano... de planos para alguns projectos prioritários, e encolhemos os ombros para outras ideias ainda indefinidas num "vamos deixar passar mais algum tempo e ver no que dá", pois as incertezas são mais que as certezas actualmente.
 

O cheiro do corpo dela inebria-me, é relaxante mas intenso na excitabilidade e ela sabe-o e, os nossos corpos comungam a mesma vontade... mas ainda é cedo há gente acordada por perto.
 

No céu as mantas de nuvens imensas de vários tons cinza vão abrindo fendas onde os brilhos das estrelas jogam na teia da luminosidade dos reflexos que se tocam e entrelaçam-se e nós, jogamos também com as memórias e desejos nossos, são incitamentos, augúrios bons (talvez até revelações) intensos de emoções e presságios neste jogo cintilante das estrelas... os nossos olhos irradiam outros brilhos de satisfação por existirmos.
 

É limpo e sereno o tempo do nosso sentir, de corpos colados um ao outro vamos admirando o horizonte do casario encavalitado e do céu já bastante luzidio na tela estrelada, há alegria em nós.
 

Dei por mim a sussurrar, quase imperceptível, como se orasse ao ar e à companheira, em jeito de agradecimento e confidências anónimas que saem.
 

- Que mais hei-de dizer a mim próprio para valorizar a sorte que tenho que já não tenha dito vastíssimas vezes na mais pura franqueza aos que passam, aos amigos, às mulheres (ela sorriu), à família, até ao mar e às estrelas?
Por vezes tenho receio de não ter dito a mim próprio tudo que já disse na rua aos outros.
Há sentimentos e pensamentos e verdades que sabemos em nós mas nem sempre os admitimos como nossos e, não há asneira mais tamanha que falsearmos o que grita no mais íntimo das entranhas.
Acho que me esqueci até de ler as palmas das minhas mãos, devo ter muito de mim nelas mapeado, mas nem disso me lembrei.
 

Ela olhou-me sorrindo com os olhos cheios de brilhos e disse:
És um homem muito valioso e extraordinário, construíste esta família, este lar, e somos muito felizes por fazer parte de ti!... Nem sempre as coisas boas e  intensas podem prolongar-se pelo tempo que desejamos ao mesmo nível, há os altos e baixos naturais do viver.
 

 - Lembras-te de me escrever aquele texto da «menina das lágrimas»? Aquela parte... aquela parte muito viva em mim. Disse ela sorrindo apertando-se em mim.
 

"- Que procuras menina? - Procuro as minhas lágrimas de Alegria... estava tão contente e alegre que as deixei rolar pelo rosto e caíram ao chão e agora não as encontro.
- Não te preocupes com isso, as tuas lágrimas não desapareceram, mas sim, transformaram-se em sementes na terra para alimentar a fonte de alegria do mundo, que em outro lado qualquer vão desabrochar como outras formas de alegria - nas plantas, nas pessoas, nos rios e montanhas, em outras flores bonitas como tu.
Ao mesmo tempo gerou em ti outras, muitas outras lágrimas de alegria, vais ver quando te rires novamente muito, e as lágrimas voltarem a rolar pelo teu lindo rosto...".
 

Nem sempre a nossa alegria e amor está no apogeu mas nunca perdem a chama e intensidade com que se criaram... o deslumbre continua por menos faladoras possam estar.
 

- Novo ano!... É sim... novo ano juntinhos um com o outro!... As nossas bocas colaram-se!
 
Carlos Reis

 
 
 
 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

PASSEANDO



Submerso em pensamentos, ondas deles ao mesmo tempo no fresco da noite, apanho pedaços de sensações de seduções serenas do momento, sentimentos de paz no sossego que o mar e o crepúsculo dão. Mas há lamentos também que circulam no ar gritando verdades de dor nos ruídos do silêncio que jorram por todo o lado.

E isto incomoda-me... Isto não devia ser assim... Estes sons do silêncio deviam ser de alegria, mais felizes, a natureza humana não é assim triste, pelo contrário é bem mais entusiasmada, mais empolgante, mas o lastro sussurrante que se sente é tão baço, tão sem cor que esmorece o sorrir.

Os pensamentos também têm essa particularidade notável, giram livres e soltos por todo o lado, têm massa e voltagem própria, vagabundos de sonhos e de desgostos que nos vão moldando.

Quanto mais descubro complexidades do mundo e da vida melhor reaprendo a olhar o que me rodeia e, há tanto de belo e encantador que parece engolido, sem proveito, pelo frenético caminhar apático que desperdiça o tempo que não volta mais.

E isto é desolador!... - Dispenso bem as certezas e regras gastas e esburacadas de alguns fazendo com que o homem não passe de mais uma vulgar marionete ao sabor das conveniências estafadas, descaradas.

Cada vez mais gosto das coisas simples como olhar os brilhos dos olhos cheios de segredos, os sorrisos abertos cheios de cores, os afagos de mãos que estremecem, a água no corpo que refresca e revigora, o deitar do dia que relaxa e esvazia a cabeça das coisas repetidas, os passeios tranquilos no embalo enamorado do mar.

Cada vez gosto mais de olhar o brilho dos teus olhos e apanhar fragmentos dos teus pensamentos vadios que me enchem de contentamento - são confidências que decifro na tela do sentir montando todos os bocadinhos em cenários deslumbrantes.

Tal como no respirar e pulsar do sangue estamos constantemente a soltar energias de nós que esvoaçam pelo ar para quem as quiser agarrar.

E eu apanho o que apanho - as coisas enfadonhas e repetitivas deixo-as lá no fundo nos cantos da cabeça para não chatearem muito.

Saboreio em primeiro as traquinices e brincadeiras dos miúdos que fazem de mim gato-sapato... as investidas sensuais da companheira - deliciosas - que fazem de mim o elixir da juventude... os momentos de paz e sossego para ir lendo e escrevendo e ouvir as musiquinhas lindas que gosto.

Prefiro admirar e saber da alegria que transborda nestes concertos e festivais de música muito pelo país fora. É de satisfação imensa o espanto que me invade na alta voltagem que irradia destes acontecimentos vibrantes de vida, de entusiasmo, no gostar de viver assim nem que seja por umas horas, ajudam a mitigar as mágoas.

E a música é um estado de exaltação sublime, de engrandecimento de tudo que vibra, de transcendência dos sentidos.

Há gente que escreve orações e desejos e vontades em papéis e panos (e na mente) no cimo dos montes e montanhas e nos seus lugares, para que as mensagens voem livremente em jeito de comunicação viva e saudações humanas-divinas...  de outros viveres de sacrifício e penúria, mas não menos alegres.

São cantos ainda isolados mas intensos de acenos de vida que poucos prestam muita atenção: São manifestações apuradas e nobres de sensibilidades únicas
São chamamentos de atenção, alertas de emoções que evidenciam adormecimento nos desequilíbrios que continuam a reinar neste paraíso terrestre.

O mundo está convulso sob prantos tamanhos de mudanças repentinas que baralham o viver até aqui conhecido...  as mudanças são sinais dos tempos e geralmente boas se as pessoas estiverem no topo da pirâmide, mas temo que os gurus contemporâneos, idolatras de deuses do metal, confundam tudo e inventem milagres torpes. levando as pessoas por caminhos de inveja e ganância desenfreados.

Se os valores e regras no cimo da pirâmide se invertem as pessoas desconfiam e isolam-se... criam núcleos de grupos restritos e fechados... abandonando aos poucos a esfusiante felicidade do convívio.

O homem, a natureza humana, tem capacidades quase ilimitadas e que ainda não conhecemos bem, é isso que nos vai valer para uma melhor e mais sadia compreensão deste mundo belo em qualquer lado.

É à volta da fogueira Universal, partilhando afectos, cantando e chorando e sonhando, que nos vamos sentir verdadeiramente livres e felizes.

segunda-feira, 5 de março de 2012

MULHER SEM MÁSCARA



Banha-se no ar que respira em brilhos nocturnos de luz das ruas e estrelas companheiras que cintilam nos passos ora calmos ora apressados, como se o destino tivesse compassos de tempo intermitentes.

Não gosta de se cruzar com a sombra negra da noite que vasculha os segredos dos sinais que os incautos tediosos na imbecilidade arrogante deixam cair durante o dia.

O seu empolgamento está na demanda das ondas vibrantes de prazer nas sombras da noite que a levam a desafiar-se a si própria até em dias gélidos, passeando-se pela costa de água murmurante confidente que saúda alegre, perguntando ao vento coisas da rua, coisas da vida, sinceridades das pessoas e das coisas que não entende.

Que lhe dizem os olhares de soslaio quando se desprende da teia do dia e mergulha nos braços de satisfação da noite? Na volúpia pessoal?

- Que fizera ela da sua própria sensatez??? Não devia ter uma como toda a gente?!... Ou a sua sensatez, também aqui, não se identifique nos padrões de muita gente comum?

Não se importa nem gosta de pedir muito, mas também não gosta que lhe tirem, nem uma lasca, da sua maneira diferente de viver. Gosta de exaltar os sentidos e pensamentos livres em interrogações vastas na tentativa de perceber melhor  os lados menos claros da vida, do mundo, para que se possa conhecer melhor... sem ter de ouvir repetidas insinuações e justificações automáticas e ocas.

Larga o olhar solto pelo horizonte no seu andar dançante sorvendo o gozo de respirar assim - tantas vezes em olhares transparentes para ver além do que é visível... adivinhando muitos encantos desconhecidos.

O frio que tanto arruína o corpo e tenacidade a qualquer um a ela estimula-a, fazendo-a deambular sozinha num prazer qualquer muito estranho, como se procurasse algo sem saber o quê.

É no silêncio cativador que esvoaça incógnito ao seu lado envolvendo-a de branduras frescas que recupera ensinamentos e verdades que pensara ter perdido.

De quem será a voz, a respiração, que a acompanha do outro lado da rua com quem conversa em longas caminhadas na sua liberdade única, partilhando emoções da sua alma?

Traz ao pescoço um amuleto que de noite é sol e de dia é lua a que se agarra com fervor tal como se ali tivesse a salvação e inspiração da vida.

Desabafa, aqui e ali, que há momentos e bocados da vida verdadeiramente estonteantes e de felicidade imensa, deliciosos, que podem ser tão rápidos que se não forem aproveitados no instante nunca mais se repetirão... palavras de emoção intensa que o brilho dos olhos se ilumina como chamas vivas, hipnóticos, magnéticos.

Prefere rasgar a revolta de si aos bocados (tantas vezes de dor profunda) pelo caminho que trilha ao acaso, para se entregar à ternura da alegria que a resgata a cada suspiro no sabor enamorado de alguém - como o deslumbre destes momentos audazes tem em si... e cantar bem alto que é assim que gosta de viver!

Constrói a cada escapadela em passeios que se prestam na sua vontade vagabunda o castelo transcendente dos seus sonhos mais viscerais. 

Sussurra em divagações arrastadas que é na música que encontra o pouso do descanso da cabeça, do espírito, da paz tranquila no adormecer.

Com o olhar feliz atira ao mar papelinhos de poemas sedutores do seu gostar, sorrindo... não sabe e nem quer defender-se de certas fogosidades das entranhas.

A fúria de viver (renascer, morrer) assim, já lhe marcou os passos para sempre!!!

Carlos Reis

domingo, 28 de agosto de 2011

CONTEMPLAR REFLECTINDO


Passava uma banda musical nas minhas costas lá em cima na rua, daquelas bandas de festas de rua, e os tom-tons dos tambores vieram juntar-se ao marulhar do mar que me entretinha do cimo do meu rochedo.
Não é que me tivesse incomodado muito mas veio despertar-me do sossego do momento e fazer-me pensar no meio ambiente, no mundo que nos rodeia diariamente.

Nós somos muito fruto daquilo que nos cerca. O meio ambiente e a maneira de viver à nossa volta está constantemente a moldar-nos.
O tempo, a natureza dos lugares onde estamos e andamos, as alterações que fazemos aos sítios que nos rodeia deixa marcas e condiciona muito a nossa maneira de viver e ser.
E as pessoas que conhecemos, ou não, com quem nos cruzamos todos os dias, vão cinzelando as nossas vidas e comportamentos, subtil mas vincadamente.

Pus-me a olhar à volta e, a matriz do sítio na sua essência continua praticamente a mesma mas, já há muitas alterações na figura, nas linhas da paisagem desta praia. O areal está a encurtar pela força do mar e também pela mão do homem. Há passagens e construções aqui e ali que vão dando jeito pela conveniência. Tudo isto não tira quase nada ao Belo do lugar mas altera o horizonte.
E é no meio disto que me ponho a pensar em mim, em nós pessoas, que também vamos sendo modificados, nas fragilidades e encantos, no tempo e meio ambiente que nos molda.

Há uns dias revi uma grande paixão minha de homem mais novo, e fiquei fascinado, novamente, pela sua beleza... não me admira nada que tivesse andado perdidamente apaixonado por esta mulher.
As pinceladas da passagem do tempo fazem-se sentir nela, e em mim também, mas ela está muitíssimo melhor que eu... o cabelo castanho claro solto abaixo dos ombros (sinto-lhes a maciez e cheiro) volumoso como crina rebelde... o rosto como "lágrima", bem oval em cima e estreito em baixo, como lhe disse tantas vezes... e os olhos de azul-cinza de sedução penetrante... misteriosos... continuam bem vivos.
Como bem vivos continuamos nós nas fragilidades e encantos que o passar do tempo nos dá!

O rochedo onde me sento e os outros à volta parecem-me mais pequenos e desgastados sobretudo nos desenhos que vislumbro agora... conheço-os bem desde miudito e os traços estão a ficar diferentes... mas continuam lindos e imponentes e lembram tantas loucuras de ontem.

A luz deste sítio continua fascinante como se fosse renovada todos os dias, há focos de iluminação entre as sombras das rochas e mar que são únicos, parecem lagoas suspensas no ar acima do mar, tentadores, que apetece mergulhar...

O horizonte longo e distante até lá ao fundo onde o mar e céu se tocam, se namoram, na imaginação estendida de partidas e chegadas de viagens de sonhos, levam-me na deliciosa descoberta de mundos como os meus sorrisos agora demonstram, olhando as pequenas enseadas na praia onde costumo passear.

E há este mar... este mar eterno... sedutor no feminino e conquistador nas aventuras de tantos rostos nos seus feitios do momento... de tantos cheiros provocadores e tentações a que não resisto... este mar sacaninha endiabrado, torturador no belo que desfalece qualquer tentativa de o amansar ... pega-me bem forte, cá dentro, na satisfação de tanto gostar...        
Que será de mim um dia quando não te puder sentir e sonhar?!!!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ANDAR ASSIM



Há alegria, alegria imensa em nós, galgando terreno montanha acima na sinuosidade feminina, entre o delicado e robusto que tem o serpentear o seu corpo.

Chove miudinho mas o horizonte continua claro nas paisagens belas e agrestes no erguer de costas que se «acavalitam» umas atrás das outras.

E o cheiro do verde e da terra sobrepõem-se ao da água que cai sem parar em cabeleiras imensas formando danças de volúpia ao calhas nos sopros do vento, satisfazendo o olhar, os sentidos, tocando bem cá dentro até às entranhas.

Cada vez mais fazemos menos estas viagens de satisfação cúmplice pois a vidinha lá em baixo não está para brincadeiras muitas assim.

Apercebo-me, com o passar do tempo que, já não falamos muito nestas escapadelas de paixão, como se soubéssemos quão felizes estamos nos silenciosos elos dos sentimentos que se falam sem palavras... outra maneira de fazermos amor.

A primeira coisa que faz mais séria quando chegamos a casa (cabana de encantos e paixões), é mudar de roupa e descer por caminhos e carreiros de tantos outros passos recalcados, monte abaixo, até à ribeira que chama na correnteza áspera e sedutora que as coisas selvagens e virgens têm.

Intrépida e ladina lá vai indo à frente, rindo e desafiando-me... acompanho-a à distância, já tenho marcas de outras quedas em dias de chuva como hoje... quando chegar lá abaixo abraço-a e beijo-a  e... empurro-a para dentro da ribeira deixando-me ir também no prazer disto, como tantas vezes fizemos.

Molhados, muito molhados mesmo, não que tenhamos mergulhado hoje na ribeira, mas pela chuva que miudinha e teimosa não pára... fomos passeando pela margem na areia e pedras da ribeira... temos grutas mais adiante para nos abrigar.

Abraçados ... deixamos o olhar solto deleitar-se pela soberba imponente dos degraus  das escarpas dos montes à volta... envoltos de véus de água colorida e verde sem fim...  e o coração pula, e o pulsar do sangue extasia-se na felicidade do momento assim sem tempo...

Há tanta paz e serenidade como no conforto do ventre matricial, o silêncio nos sons naturais entranham-se em nós e os corpos perdem dimensão no deslumbramento.

E apetece ficar assim hipnóticos para sempre nestas sensações profundas, espirituais, de arrebatamento inefável.

Eis a nossa gruta preferida de boca grande e cheia de sinais e segredos de nós... no meio há duas rochas que formam um berço onde nos deitamos, ouvindo os cânticos da natureza lá fora que nos embala e abençoa... e a embriaguez inebriante dos sentidos toma conta de nós... e os brilhos dos olhos unem-se, e os lábios tocam-se no saboreio das bocas que se fundem... e o tempo pára e mais nada existe...   na alegria encantatória dos beijos dados, sem aflição, na entrega sem palavras... longos, muito longos quase sem sons... só o arfar sôfrego da respiração se ouve...  no ar... na carne... nos murmúrios dos ecos da montanha. 

Carlos Reis

terça-feira, 28 de junho de 2011

PERTENCER AO MUNDO


Olhas o espaço à tua volta como se pudesses pontuar as linhas de adivinhação do futuro, e isso são manifestações que não podemos medir.

Muito de divagações e desvarios - emanação das entranhas - que te fazem vibrar o ego e a alma.

São revelações e confissões que não controlas, simplesmente acontecem.

Transmites ao horizonte aberto que olhas, no mar sereno agora, a tua respiração desassombrada no espelho da água em gestos de encanto... compõe-se e desliga-se no ondular reluzente que baila sem parar.

Tenho olhos profundos e distantes à minha frente envoltos de silêncios com voz em mistérios de meditação, quietude, revelando no azul leve do fim da tarde o feitiço da noite que se veste para dançar nos braços frescos do ar.

Sibile... Ohhh Sibile, toca para nós... entoa-se no suspirar do ar sussurros em pedidos incessantes das brisas que se desfiam!

Por onde andaste para saberes tão bem como se seduz as estrelas do céu, a liberdade das aves e as ondas do mar assim?

Enleias pela vontade e pelo namoro muito das disposições do sabor do imprevisto e segredos dos impulsos que enriquecem os acasos, os cultivados e os outros.

Passeias-te sorridente de mansinho pelos compassos das rebentações das ondas nas rochas que gemem prazeres que conheces... são ecos indeléveis.   

A Lua aos teus olhos é o brinquedo sublime que moldas como te apetece, é o pêndulo do gostar do teu peito, crias e recrias a luz do espírito no momento, como as figurinhas de fantasia que nascem quando nascemos.

Depois saltitamos vivendo divididos entre a Aprendizagem e Conhecimentos da Mente , o Sentir da Alma e o Saber do Coração... são correntes em nós que nem sempre se dão bem, como bem sabes, mas unas no mesmo corpo... são universos imensos da Criação, talvez um dia possamos conciliar melhor os conflitos que estas forças, unas em transcendência, desencadeiam no intelecto, nos sonhos, nas paixões.

E há satisfação tanta, imensa em ti, que me toca profundamente... o espaço aberto e o mar são atalhos de pasmo de algo que procuras... não sabes o que é mas sabes que existe, algures num olhar infinito.

És um barco de sentidos soltos e livres que se embrulha no balancear da descoberta!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

IR ASSIM

É a febre teimosa e frenética que me faz deambular solto pelos cheiros da terra e da água, do fogo e do ar.

São os olhos das aves que me elevam no perscrutar as altas montanhas que desafiam as nuvens maciças em picos tamanhos que brincam com as estrelas.
São as escarpas de vales profundos que criam lagos de coloridos mágicos sem nome, que me entusiasmam o passear sem limites… e os jardins das planícies nas encostas sobrepostas são berços para descansar…
É o encanto do deslizar dos rios e a soberba dos mares que nos seus desafios de correntezas constantes empolgam-me as entranhas, e tudo isto é revolta e docilidade na beleza e dureza que no aparente caos demonstra a sublimação do suave das mãos da paz que criámos, nos seus contrastes apaziguadores.


São as pessoas e animais na demanda diária, entre quedas doridas e gritos de altivez, que não esmorecem nas lutas e batalhas de sangue e lágrimas e alegria esfusiante, nos cânticos de vitórias gratas pelo viver, pelo sobreviver em êxtase e euforia… que iluminam o brilho dos meus olhos no contínuo espanto de aprender algo todos os dias.


O fogo do sol, denso e sumptuoso no calor e luz sem igual, humilde e arrogante, atiça a chama em plenitude em cada pedacinho da existência em mim, em nós… desencadeia o fervor do sangue, das vontades e desejos… é um universo de eleição que rejuvenesce os fulgores mais adormecidos e atrevidos.


Hoje não te roubo ao céu Lua… vou ter contigo e deitar-me no conforto branco quente do teu leito… sonhar e em sonhos pedir-te que me contes mais dos teus segredos ancestrais… fala-me dos delírios e fascínios que já viste e provaste dos homens.


Não me chamem… deixem-me ir assim em asas de luz trespassando o ar voando livre e desprendido.
Parte de mim deixa o corpo e estende-se na fluidez dos átomos que sustentam o esvoaçar feliz.
Se pudesse esvair-me em alguma coisa diluir-me-ia em sons – sons do respirar inquieto e profundo dos sonhos… nos sons de magia dos risos… nos sons dos beijos em abraços apertados e demorados… em sons do pensar no pranto de continuar a descobrir coisas… em sons sibilantes e encantatórios que enchem as profundezas dos ecos em mim, como se tivesse mil vidas para desperdiçar.


Desafio-me até na raiva da vingança do tempo quando se lembra de me avisar que só tenho uma vida material para cumprir.
Que importa? A liberdade dá-me a inventiva de no pecado e virtude moldar correntes desenfreadas em que construo mundos e vivências para explorar.
Sou a osmose que separa e une a carne ao espírito na alma vagabunda que me anima.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

TEMOS DE IR

Temos de ir disse-nos a Lua – hoje despida de qualquer sombra e nua no seu esplendor – que as horas da noite irão ser empolgantes para os amantes vadios da luz de ruas desertas de falsidades e repletas de encontros de paixões vagabundas.



Há o fresco frio nas brisas do ar que não incomodam o latejar do sangue que bebe no calor de olhos e mãos próximas o incentivo para continuar.
A voz da rua chama muito em silêncio descomprometido, como sussurros de mulher apaixonada, quase sem sons mas intensos cá dentro.
A noite está tão clara que embriaga os sentidos e o ruído dos passos ecoam ao longe, os meus, os dela, e os dos espectros dos sonhos que se passeiam livremente.


O mar no seu cheiro e cantar, agora tão manso como o respirar dos brilhos das estrelas que nos acompanham, fazem sentir-nos tão imensos como o horizonte infinito que nos entra pelos olhos brilhantes que tudo querem tocar.
E soltamos sorrisos em beijos demorados que auguram desejos e vontades que sabemos vão ser cumpridos… e à volta gira o mundo num carrossel invisível que é o nosso leito de suor e sangue a pulsar.


Os passos soltos levam-nos aos mesmos sítios de ontem e hoje… lembrar a magia de loucuras e devaneios que ainda são os de hoje, são deleite saudável para repetir sempre… as marcas estão bem vincadas em nós e nestas pedras que sabem segredos incontáveis – lembras-te de andarmos nus em noites errantes nestes rochedos que entram mar adentro?


Embrulhada nos meus braços ia apontando para os desenhos da água, contando o que via nas ondas que no seu brincar formam visões surreais tamanhas que alimentam o imaginário livre… em elos febris no momento que nos fazem sentir bem no fantasmagórico que a noite proporciona


No ondular das ondas serenas há espuma que parecem folhas de papel que se espalham no areal… fomos ver e não tinham nada, são folhas de água em branco para escrever…
E escrevemos nas folhas da areia…”Viver e sonhar e voar é um jogo astuto e malandro… é intenso e desvairado… são altos e baixos de planícies, vales, montanhas que guardam e recriam o que temos dentro de nós… as nossas entranhas têm o saber das emoções e sentimentos em memórias que nem sempre são claras e percetíveis… só o uso diário as faz emergir”.


E em cantos de sombras de rochedos que a felicidade em nossas entregas de ontem, hoje, foi intensamente vivida… voltamos a derramar o nosso gostar e prazer.
Não nos esperem hoje à noite, amanhã voltaremos cheios de abraços do mar.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Olhares e Encontros


Dançou durante horas semi-nua, meneando e contorcendo o corpo para deleite de olhos cobiçosos.
Sabia o que fazia, era a rotina diária nocturna, quer gostasse ou não… e ela aprendeu a gostar de prender as atenções libidinosas de quem a via… homens e mulheres rendiam-se à sua arte de sedução e exaltação dos sentidos… felina, dominava e manipulava as ânsias do circo em redor, no ferver da carne transbordando de desejos.
Sabia que tinha de ser assim, sóbria ou bêbada, tinha de exalar perfume e excitação no palco que cheira a suor estafado.


Cansada, sai ladina em madrugadas sem muitos olhos, silenciosa resvala como as sombras.
Esguia, não sabe para onde vai, deixa-se ir como o vento sem rumo, já não tem encontros combinados.
Emproada e arisca, só os seus passos a acompanham no silêncio desamparado.
Defende-se do isolamento da noite cantarolando baixinho, dançando levemente no passar.
Só, verdadeiramente só, nunca está, tem a lua e as estrelas, agora disfarçadas no breu das nuvens, que a alentam no caminhar desembaraçado.


Se o frio e chuva beliscam a pele, sorri, ondulando o corpo em desafio.
Escusa-se aos grandes burburinhos de muita gente desatinada e barulhenta.
É vagabunda na independência e dispensa bem a concorrência.
Altiva pela experiência sabe o rumo que tomar no passear até ao mar.
É rocha firme nas cedências, agora em paz, só o que a cativa no deslumbre do olhar da noite, tem permissão aos toques mais íntimos… ao romance no momento!
É livre por que a liberdade do viver assim lho concebe pela soberba do querer assim... nos momentos que são só seus!


Passeia-se pela areia molhada da chuva que cai, descalça, desafia a intempérie, olhando o andar como se fosse a primeira vez, é o prazer de relaxar assim de novo, uma vez mais, todos os dias assim no gostar de estar assim, como se celebrasse a dança da semente, do renascer…sozinha no devaneio de expulsar a repulsa que a consumia.
Exorcizava o peso que não gostava do corpo e da alma.


Ouvir o mar furioso, o silêncio da noite alterada, a melodia da chuva persistente, respirar por momentos em total liberdade o fresco que a inunda por dentro, deixando as vísceras extasiadas sem pressões voar, fantasiar, era a delícia reconquistada.
E a eternidade que restava da noite era só para si e quem escolhesse.


Deitou-se nos meus braços, desarmando-se, descobri-lhe o sol alado dentro do peito palpitante.
Deixou-me olhá-la por dentro sem máscaras e vi: vontades, desejos, sonhos, que boiavam nas torrentes do sangue tonto que gritavam por serenidade.
Satisfiz alguns outros não - há vontades e desejos e sonhos que só nós próprios conseguimos realizar, mais ninguém os pode fazer por nós!
Mulher Bela esta que nas lágrimas soltas, sorrisos livres e olhar penetrante, pedia, sem palavras, que a deixassem olhar o sol da manhã sem pressas!


Já provei tantas vezes o Mel e o Fel de ti noite… e sabes?!... Gostei de ambos!!!


Carlos Reis

domingo, 22 de agosto de 2010

INTEMPORALIDADES

Gosto de te ter assim sorridente ao meu lado de mãos dadas,

Sentir o latejar do teu sangue e receber os recados silenciosos que dizem,
Perceber como estás feliz, como estamos felizes neste deambular solto,
Há tanto em nós que nos torna únicos neste saber o que queremos sem trocar palavras.


Vem comigo, agora vamos voar sobre o mar a caminho das estrelas,
Sabias que há lagos nas estrelas feitos dos olhares das pessoas quando as olham?
É verdade, deixam lá brilhos dos olhos da verdade dos sentires no éter que os levam,
São maquinações dos sonhos, que sábios como são espantam o mal e adulam o belo.


Diz-se que nas estrelas tudo pode acontecer sempre que as emoções pensam,
Não é mentira não, é tudo real, é a inteligência do coração quando se abre em plenitude,
O coração como tem vida própria quando a explana, sem máscaras, só fala a verdade,
E a verdade do coração mesmo que insondável é percebida a cada batida da ansiedade.


Podemos brincar e sonhar nas estrelas como em mais nenhum lugar,
Se quiseres podes pegar nos fios dourados do sol e tecê-los em longas tranças,
São caminhos que nos levarão a outros universos, outros mundos de encantos,
Mas sê delicada nos teus gestos, cerzir os cabelos do sol precisa da paixão das entranhas.


Tudo aqui em cima no mundo do cosmos é muito espaçoso e fácil de saltitar,
Vês todo este manto escuro no espaço entre os astros e galáxias? É a matéria negra,
Parece vazia mas não está... está cheia de energia viva que no querer da mente sopra ar,
São como os caminhos na Terra que nos deixam viajar, só que aqui é tudo muito mais rápido.


São formas de asas que o instinto desperta e no mesmo instante flutuamos em outro lugar,
Plantamos um resplandecente jardim de rosas de um lado e nenúfares no lago adiante,
Não existem fronteiras neste tempo sideral se as vontades e desejos almejarem,
Tudo é permitido aqui aos olhos da mente na moldagem do mais distinto jogo a dois amante.


Caminhar entre sóis e galáxias é tão simples e delicioso como andar no areal da praia,
É pegar-te ao colo e dançarmos sem chão, o que nos suporta sãos os sons da medodia,
Que nos levita, nos leva, nos acordes que se sussurram dentro de nós e o vento fresco desfia,
Tal como nos corpos que se dão e nos beijos de paixão nada mais existe... é tudo inconsciência!


É como o pintor quando olha para a tela branca, sem nada marcado, vai brincando com os jogos das cores e já tem a pintura praticamente feita.
É como diz aquele maluco do Einstein, nada é verdadeiramente real, são tudo espelhos de ilusão, tudo depende do lugar e da nossa perspectiva.
É como faz o poeta, nada mais tem do que sentimentos de si e dos que rouba ao alheio e exalta-os dentro de si, depois em palavras, junta tudo para criar sonhos e arrebatar as almas.
É o que estou a fazer agora na folha vazia à minha frente, pego nas letras e jogo com as palavras para vos deixar os meus sentires e emoções!...


- Eiiiiii tu!!!... Por onde andas com esse sorriso alegre no rosto e ar sonhador!?
- Eu???... Eu... pensava em ti... como és linda e gosto tanto de ti!!!
- Hummm... olha que já te conheço... esse sorriso sonhador é lascivo também... por acaso não estás a pensar o mesmo que eu, ou estás??!!
- Poisss... se calhar estou!!!... Mas primeiro vamos molhar os pés no mar!!!

Carlos Reis

domingo, 11 de julho de 2010

Passeio Nocturno


Está particularmente feliz hoje esta minha ninfa bela que faz o favor de me acompanhar nos últimos anos. Toda ela irradia sedução na graciosidade dos seus gestos soltos e despreocupados, fica-lhe bem este seu jeito único de atrair e seduzir.

Parece uma menina grande quando sabe que está sendo o foco das atenções, provoca ainda mais em insinuações atrevidas e livres movimentando o corpo em desenhos sensuais.
Conheço-a bem e sei quando faz estes jogos com intenção, hoje não, simplesmente está felicíssima, e toda a luz feminina que emana de si é original, até os brilhos dos olhos parecem flutuar nuns belos acordes de melodia transcendente…
Os sorrisos quase mudos que nascem na sua linda boca de lábios grossos, parecem ondas vibratórias no ar como o voar das borboletas, quase imperceptíveis sinto-as na pele, em tentações, quando os silvos me tocam.
A noite está maravilhosa neste fresco que o mar empresta, e o marulhar é orquestra que nos brinda com sinfonia serena no bailar das ondas mansas.
O tecto do céu sorri-nos com o seu imenso brilhar estendido convidando-nos a dançar… e com a água aos nossos pés, no paredão, bem dentro do mar, dançamos… dançamos quase parados num gostar doce mágico e tranquilo sentindo as nossas carnes quentes roçando-se em deleite.
As bocas pedintes colam-se em beijos suculentos deixando os corpos falar… as mãos perdem-se explorando todos os pedaços da carne palpitante e lasciva… a respiração altera-se e os suspiros confundem-se com o cantar do mar
A evidência é imperiosa e transparente e não disfarçamos o desejo que grita, mas ali não, estamos à vista de todos…
Despedimo-nos do mar e do céu cúmplices e, entre risos e olhares, quase voando, temos de chegar depressinha à primeira barraca na praia, adoptando-a como cabaninha do amor para acontecer.
Há sempre juras silenciosas de volúpia nestes momentos em que o mundo deixa de girar…e a noite baila, e o céu abre-se vestindo-se de nuvens de sonhos em sensações estonteantes que os corpos amantes na entrega recriam!

Carlos Reis

terça-feira, 4 de maio de 2010

NAMOROS


Mentes vazias


Memórias muitas
Ondas nos olhos
Beijos de mulheres afoitas
Sentidos despertos
Mãos ansiosas
Sangue tonto em correrias
Carne endurecida latejando
Peito e seios comungando
Lábios frenéticos estremecidos
Labirínticas pernas entrelaçadas
Coxas escorregadias
Frémitos de ancas sôfregas
Sexos pedintes
Pés sem chão
Suores em pele arrepiada
Línguas molhadas
Braços sem jeito
Melodia do mar
Gemidos sem ar
Cabelos soltos rebeldes
Corpos colados em juras
Segredos desvirginados
Originalidades pululam repetidas
Entranhas extasiadas
Gritantes, gritantes, gritantes


Inconsciência


Tempestade


Explosão


Erupções


Lava derramada em leitos saciados.


Carlos Reis 

terça-feira, 20 de abril de 2010

Eu, Tu e a Escrita

Continuo a gostar bastante de ter folhas de papel vazias e soltas à minha frente.



E no branco deixar o lápis fluir na escrita como lhe aprouver. Entrar no jogo das letras que se juntam, e brincam, para formar palavras em desenhos que transmitem sentires e emoções e pensamentos como o pintor faz às suas telas em branco… como o escultor faz na sua massa disforme… e criar em total liberdade muito de mim, que se alimenta de bocados de memórias de ontem, de hoje, e do agora!
É um exercício belo o acto da escrita assim… é quase um puro acaso… é um puzzle desconhecido… o corpo do texto vai aparecendo por ele próprio como se ganhasse vida em cada letra que se junta ao jogo.
E neste respirar que emerge de mim sempre que acrescento alguma palavra, o texto «arregala os olhos» como novo sopro de vida… e elucida-se!


Sempre que olhares os brilhos da lua ou o sol desfeito em cores que queimam e me pressentires saberás porque existo.
Fui moldado por qualquer motivo para te acompanhar, até temos o mesmo reluzir nos olhos, já viste?
Mesmo não estando juntos naqueles momentos em que chego mais tarde, olhas o céu e ele dir-te-á onde estou - estou nos teus olhos e na paixão indivisível de nós.


Olhei o sol a pôr-se e estava deslumbrante, enorme, imenso naquele vermelhão que ofusca os olhos, abraçando o mundo na sua vaidosa grandiosidade, e eu senti-me vibrar nesta partilha de poderio… desencadeando fulgores em mim, no sangue, compincha de tresloucadas correrias no corpo, e pensei em ti!
Tu sabes como te adoro mulher amante e companheira, mas também sabes como preciso do ar da rua.


Perder-me sem rumo nestes frescos dos espaços abertos, beber o sussurrar deste vento que alvoraça o meu rosto e acalma o frenesim deste meu espírito sempre inquieto e pronto para aventuras, rebeldia de mim em constantes anseios por redescobertas, suaviza o ritmo dos dias repetitivos que me cansam e torturam-me como só eu sei!


Nem sempre consigo resistir à tentação do mar e dispo-me… em muito de nu, enfio-me na água e perco muito da minha identidade de roupa vestida, e vou, vou até algum rochedo em abraços cúmplices com as ondas que me sacodem no seu corpo de alegria.


Sentar-me num rochedo bem dentro do mar é das sensações mais extasiantes e deliciosas que conheço, é unificar-me às partículas mais simples e intensas que existe no universo… é como deixar muito a forma humana nestas alturas e tornar-me matéria viva contemplativa, criadora do cosmos… podes crer minha querida tantas vezes já me senti um pequeno deus.


Tal e qual quando em miúdo, bem dentro das entranhas dos mares no oceano aberto, deserto de água aos meus pés e céu imenso nos meus olhos, falei e falei com o ar como se obtivesse respostas num «tu lá tu cá» como amigos de longa data, numa transcendência etérea abismal…
É tão intenso e persistente este sentimento como o mistério adulador dos cantares nos silêncios ondulantes, que se entranham bem fundo na alma, e o Celestial engravidasse, unicamente, para que fosse a minha terra.

São elos tão fortes entre mim e o ar da rua e a água, que te peço que me perdoes pelas minhas ausências.
Perdoa-me os atrasos nos dias em que demoro muito a despedir-me da lua.
Perdoa-me os longos minutos em que me anseias e eu continuo a vaguear à toa.
Perdoa-me os abraços e beijos que te devo quando devaneio nas pluralidades da noite.
Perdoa-me este meu jeito descuidado quando não te dou a atenção que mereces e precisas.
Mas NUNCA me perdoes se me esqueço de te trazer pedaços do sol, pedaços do mar, pedaços da lua bem dentro de mim, para tos dar por inteiro à noite, no chão quando te toco, nas vontades de nós, na mais bela e deslumbrante dança dos corpos!

Carlos Reis